sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ciência e educação

Sempre quando temos aula de biologia, no ginásio, no colégio, vem aquele monte de informação que a gente aceita porque o professor falou, que faz muito sentido quando ouvidas pela primeira vez, mas nunca paramos para nos perguntar como aquilo foi descoberto ou qual a fonte daquela informação. É claro que se quiséssemos pesquisar sobre tudo o que a gente aprende para validar informações, levaríamos anos para cobrir apenas as matérias de ensino médio. Mas acreditar em algo só porque alguém falou que era assim não faz muito sentido.

O que me incomoda, no entanto, é que as pessoas não saberiam nem como validar tais informações, pois não sabem nem como a ciência chegou naquelas conclusões! A população geral até tem um bom conhecimento em biologia, mas não sabe muito bem como a ciência realmente funciona, não sabe que a ciência é questionar racionalmente qualquer fato e propor explicações para ele. Uns alunos meus do cursinho, vira e mexe vêm com dúvidas relacionadas a questões de vestibular que pedem para assinalar a alternativa que corresponda ao jeito correto de conduzir o experimento científico mostrado. Em qual momento da minha formação eu aprendi que se deve realizar um experimento com um controle? Nunca! Só na faculdade eu aprendi isso. Quando foi que aprendemos que a ciência trabalha com paradigmas, hipóteses, previsões e experimentos? Não aprendemos o que é ciência na escola, apenas um monte de informações factuais que são jogadas e que devem ser digeridas pelos alunos. Talvez seja por isso que o Brasil ficou em 52º lugar dentre 57 países em um teste que mede o aprendizado em ciências para alunos de 15 anos. E talvez seja por isso também que muitas pessoas acreditem que a ciência é uma forma de religião porque os professores dizem que aquilo é daquele jeito e ponto final, temos que acreditar. No Brasil funciona assim, mas a ciência não é isso.

A ciência propriamente dita só trabalha com fatos que possam ser provados através de experimentos. Quem quiser pode realizar aqueles experimentos novamente quando quiser, pois eles estão à disposição, e pode-se então questionar os resultados se lhes convir. Por isso a ciência é tão certa do que diz, o que ela descobre não é a verdade absoluta, mas uma resposta que foi conseguida através de uma experiência. Funciona assim:
Eu observo um fato que me chama a atenção, o arco-íris por exemplo. Eu faço uma hipótese de que a luz do sol, passando pelas gotas de chuvas, se decompõe em diversas freqüências de luz formando as cores. Dentro dessa hipótese eu faço uma previsão: se eu jogar uma luz branca como a do sol em uma gota de água, vou conseguir do outro lado da gota um arco-íris. Faz-se a experiência. Se a minha previsão não corresponder com o resultado, ou seja, não aparecer um arco-íris, então jogamos aquela hipótese fora e tentamos outra. Se a previsão se confirma, depois de tentar de novo muitas vezes em diferentes condições, dizemos que aquela hipótese é válida. Aquele então passa a ser a idéia que todos irão aceitar (chamada de paradigma) até alguém propor uma idéia melhor para explicar aquele fato. Todas as explicações científicas foram obtidas assim e qualquer pessoa que quiser bolar uma explicação melhor ou refazer o experimento, está livre para fazê-lo.

Claro que, no entanto, muita coisa na ciência é arraigada em crenças também, como por exemplo, a teoria de simbiose da mitocôndria com células eucariontes (acreditam que as mitocôndrias eram bactérias que passaram a viver dentro das células por mutualismo). Não podemos voltar no tempo pra ver se isso ocorreu de fato, nem provar por experimentos, já que isso ocorreu há milhares de anos, mas temos evidências fortes que nos levam a pensar assim. E as conclusões que tiramos a partir das evidências podem sim ser consultadas e questionadas.

Na Inglaterra, cerca de 80% da população diz que não acredita em nenhuma forma de religião. Lembro que conversando em Londres com minha professora, sobre horóscopo, eu disse que não fazia sentido uma pessoa que nasceu em um país diferente, com diferente cultura, diferente carga genética, ter o mesmo tipo de comportamento só porque nasceram no mesmo dia. Ela achou engraçado e disse: “Olha lá que o cientista vai falar...”. Interessante, aqui no Brasil eu sou biólogo, que vai ser professor, ou trabalhar em prol do meio ambiente, mas nunca sou tratado como cientista! Nos Estados Unidos, a profissão de cientista é mais respeitada do que médicos (segundo lugar) e bombeiros (terceiro lugar). Na Inglaterra, talvez por Darwin ser inglês, as pessoas acreditam na seleção natural e fazem chacota das religiões. Minha professora falou, inclusive, que esse assunto é motivo de piada em Pubs e conversa entre amigos. Quando eu digo que não sou extremista quanto a essa questão, acreditem: eu não sou. Sei a importância que a religião tem na vida das pessoas, mas sei também que é perfeitamente possível viver sem ela. Não quero impor minha opinião a ninguém, quero apenas expô-la, é meu dever como educador da área científica. E não aceito que nenhuma religião me impeça disso. (Essas últimas considerações desse parágrafo foram para pessoas que disseram que eu era extremista. Só queria deixar claro)

Acredito que a aceitação da ciência, da razão, no lugar de mitos e lendas, se daria de maneira mais eficiente se o método científico fosse ensinado nas escolas e que se mostrasse que todo o conhecimento humano foi conseguido desse modo. É como se dá na Inglaterra, por exemplo. Esse post é destinado principalmente para os futuros educadores da área biológica (amigos de faculdade), também para qualquer educador atuante e para as pessoas que não conheciam o pensamento científico.

E com isso acho que termino meus posts sobre religião. No Brasil esse assunto é tabu, as pessoas dizem que não se pode discutir sobre isso. Não é verdade, tudo deve ser discutido, não se pode deixar que aspectos influenciáveis da sociedade não sejam tratados racionalmente.
Obrigado a todos que leram e opinaram, seja deixando um recado aqui, seja pessoalmente.

2 Comments:

chico said...

Um dia você vai enlouquecer.

Primeira razão: vc é um cara quase cosmopolita. Várias culturas já passaram pela tua.

Segunda razão: vc faz faculdade, ainda mais de biologia.

Terceira: parece que vc está no início de uma sistemática de pensamentos sem fim.

Quarto: VC É PROFESSOR!!! isso enlouquece qualquer estado de espírito!!

quinto: vc não tá sabendo lidar com tudo isso e tá se frustrando fácilmente. Ou simplesmente está deixando de ser cosmopolita para se tornar brasileiro beberrão.

Não vou te dar dicas por que não sou ninguém pra isso, muito menos experiente o suficiente.

VC JÁ LEU O ODUM QUE EU DISSE????

Dá uma olhada no capítulo que fala de dinheiro. Faz uma analogia a tudo.

Vo te empresta um livro. Chama políticas da natureza. aí completa todas as teorias.

Aí eu acho que vc fica mais relaxado. Traga felicidade nas suas opiniões. Seja mais pessoal, e não um país todo!

Eek! said...

Meu, que texto animal! mto bom msm, mas o problema eh q todos q vao ler nao precisam ler, no fundo eles ja conhecem essa forma de pensar...

e acredite: vc nao conseguira convencer mta gente, eu ja tentei...