sábado, 15 de dezembro de 2007

Extremismos

Li uma reportagem essa semana na revista Carta Capital sobre o fundamentalismo ateu. Mostrava o biólogo Richard Dawkins e seu novo livro entitulado “God delusion” (“Deus, um delírio”, em português) que ficou 14 semanas na lista dos mais vendidos. Ele defende a ciência como a única forma de conhecimento válido e critica a religião por fomentar guerras, desentendimentos, informações falsas e diz que o ideal seria aboli-las do planeta! (na verdade a ênfase é na religião católica)

Tudo bem, concordo que a ciência seja a única forma de conhecimento válido pois é baseada em fatos, experimentos e na racionalidade (se alguém conhecer outra forma, por favor eu gostaria de saber). Também concordo que a religião por muitas vezes seja usada como argumentos para ataques pessoais, serve de pretexto para criminosos cometerem suas atrocidades, mas não acho que devemos ser tão radicais porque apenas o caráter extremista das religiões é assim.

Qualquer forma de radicalismo, de extremismo ou de fundamentalismo é ruim. Um exemplo dado na revista é de um empresário, Enron Jeffrey Skiling, que levou o ateísmo ao extremo quando, munido de argumentos do livro “O gene Egoísta”, também do Dawkins, foi condenado a 24 anos de prisão por chefiar a fraude que levou sua empresa à falência deixando dívidas de 40 bilhões de dólares. É claro que é um fato isolado de extremismo, mas esse caso é utilizado por cristãos para dizer que isso é prova de que o ateísmo desemboca necessariamente no egoísmo e na falta de valores morais. Não é verdade.

Acho que Dawkins peca pelo mesmo motivo que os cristãos quando tentam interferir na sociedade. Se cristãos não podem usar camisinha, azar o deles, eu posso. Eles não podem fazer aborto, então que eles não façam. Se eles têm regras para o clube deles, eles que sigam essas regras. Eu, que não faço parte do clube, não preciso seguir as regras estabelecidas por eles. Condeno, portanto, o intervencionismo da igreja na política e na economia. Não precisamos tirar a religião do povo, mas é fundamental que não se deixe que temas religiosos determinem o que nós, não religiosos, devamos ou não fazer. Quando Dawkins prega que devemos combater a igreja e aboli-la, ele faz o mesmo que os crentes, ou seja, tenta impor regras que ele acredita serem certas a pessoas que não acreditam nelas.

Um fator que acho que não é levado em conta pelo biólogo inglês é que em todas as culturas, sejam índios brasileiros, índios andinos, índios africanos, aborígenes australianos, todas essas culturas que nunca se encontraram possuíam alguma forma de religião. Inclusive em chimpanzés já foi presenciado danças onde esses batiam os pés sincronizadamente quando uma forte chuva se aproximava, podendo significar que estavam querendo deliberadamente saudar ou repelir a chuva, quase como um ritual religioso². Visto dessa forma, pode-se dizer que a religião, a necessidade de crer em algo maior, não é social apenas, mas sim intrínseco da espécie humana (inclusive de alguns primatas, em menor nível).

Conheço uma amiga que é aluna de cursinho. Ela estudou, ela sabe que existe evolução, que a religião católica foi criada pelo homem como forma de controle, que padres não podem casar porque senão parte do dinheiro da igreja iria para as esposas, entre muitas outras evidências histórico-biológicas que inviabilizam os preceitos cristãos (fora toda a parte racional envolvida). No entanto ela prefere acreditar que o que a religião diz é verdade. É interessante notar que todas as religiões se dizem dona da verdade, a hindu, a cristã, a muçulmana, mas podemos perceber claramente que elas não podem ser verdade, visto que são excludentes. Mesmo assim, essa amiga prefere acreditar no cristianismo mesmo sabendo que não é racional. Como podemos argumentar contra isso? É o mesmo que, fazendo uma analogia com o filme Matrix, uma pessoa saber que a vida dela é mentira, que ela vive num mundo de fantasia, e mesmo assim escolher a pílula azul, que seria escolher continuar vivendo essa mentira, mas feliz. Os que escolhessem a pílula vermelha conheceriam a realidade, deixariam de viver no mundo falso produzido pelos computadores. Existem os que são felizes fora da Matrix, com a escolha racional, e os que são felizes dentro da Matrix, com a escolha não racional. Um dos personagens, inclusive, quer voltar à Matrix mesmo sabendo que não é real. Isso também acontece com a religião, muitas pessoas preferem ter algo a que se apegar mesmo não sendo racional pois é um fardo muito grande ser responsável pelos seus próprios atos (Sartre argumenta isso de modo mais aprofundado).

Não há muito tempo, o doutor Drauzio Varella, por meios lentos e graduais, tentou dissuadir os ouvintes de seu programa no rádio a respeito de suas crenças. Aos poucos o médico, que é uma autoridade de respeito em sua área, tentava levar seus ouvintes a crer que Deus não existe. Ele desistiu de sua ambição no dia em que um ouvinte chegou e disse assim: “Ô Doutô, mas até Deus você quer tirar da gente?”.

Portanto não acho que tirar a religião do povo seja o certo a ser feito, acho que ciência e religião conseguiriam viver harmoniosamente se a religião não interviesse na ciência, como em relação às células tronco ou ao ensino forçado de teologia e tirar do currículo a teoria evolucionista de Darwin. Também não deveriam intervir na sociedade, como no aborto, na eutanásia e no uso de camisinha. A religião deve saber que serve para dar fé, dar esperança, e que não é função dela dar palpites sociais. Nosso papel como cientistas não é extinguir de vez a fé das pessoas, apesar de ser plenamente possível viver sem Deus. Nosso papel é tentar mostrar o racional, o que existe fora da Matrix, cabe somente às pessoas escolherem se querem a pílula vermelha ou a azul.


²- Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade, Felipe Fernández-Armesto, p. 33.

2 Comments:

Bia said...

É bom vc sentar comigo com esse texto impresso na mão!!!

Eu discordo de cada parágrafo, de cada um!!! E você também discorda!!! E eu vou te provar!!!

cássia said...

alef, vc sabe que eu fiz dois anos de biologia. entao eu sei do que vc está falando. mas eu vou ter que te contrariar. eu nao vou discutir quem tá certo ou quem tá errado.
nao é a igreja (mas na MINHA opiniao) que interfere quanto a eutanásia, aborto e camisinha. dentro do seu clube, como vc mesmo se refere, ela proibe tudo isso sim. mas se a igreja tivesse alguma importância nessa questao, a camisinha seria proibida dentro da sociedade em geral. o problema com eutanásia, aborto, células tronco, é moral. é aquela velha história de 'matar um inocente' etc, etc. eu sou cristä, cardecista e acredito e muito na ciência. nao acho que adao e eva tenham povoado o mundo, nem que maria fosse virgem. nao acredito na bíblia senao como um livro de história.
mas eu acho que toda generalizacao é perigosa. eu nao vou dizer o que é certo e o que é errado. eu acredito na fé, acima de tudo, porque ainda tem coisas sim que nem a ciência pode explicar.
o que me incomoda, é essa mania das pessoas tentarem dizer o que é certo e o que é errado. por que as pessoas nao podem simplesmente viverem com a sua idéia, sem ter que tentar convencer o cara do lado? pô... ema ema!

bjs